“Não te posso, ninguém poderia descrever-te aquele instante de desvario! Nao havia ali oficiais, nem comandantes, nem marinheiros. Foi um primeiro minuto de correria, tresloucados, grumetes abraçando sargentos, comandantes e praças a darem as mãos, e todos aos encontrões!

Ali vinham eles! Ali vinha a imagem da Pátria novamente através dos mares, sobre os céus por descobrir!”

Foi assim que, em 1922, Sarmento Rodrigues, a bordo do navio República, descreveu o avistamento de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no seu avião Fairey IIID, a chegarem aos Rochedos de S. Pedro e S. Paulo no Oceano Atlântico. Terminavam a mais longa e difícil etapa da grande aventura que foi a primeira travessia aérea do Atlântico Sul e que ligou Europa à América do Sul, Portugal ao Brasil, pelo ar. Fez-se História e com isso a Humanidade avançou mais um importante passo na construção da civilização moderna. A visão de um Governo que acreditou na ideia, uma liderança que não olhou a meios, uma vasta e altamente moralizada equipa técnica que organizou toda a logística, o génio e a audácia dos dois aviadores levaram à inscrição de Portugal e dos seus nomes na História Mundial da Aeronáutica.

Toda a viagem implicou riscos enormes. Foram necessários três aviões para completar a viagem. Com o primeiro, o «Lusitânia», os intrépidos aviadores chegaram aos Rochedos de S. Pedro e S. Paulo mas partiram um flutuador na amaragem e o avião acabou por se afundar. Na segunda etapa, entre o mesmo local e a costa do Brasil, com o segundo avião «Pátria», uma falha mecânica obrigou-os a uma amaragem de emergência em mar alto e só foram salvos cerca de dez horas depois por um cargueiro inglês. A terceira e última etapa, entre Fernando Noronha e o Rio de Janeiro, foi concluída com o avião baptizado de «Santa Cruz».

Estes dois aviadores alcançaram, com todo o mérito, o estatuto de heróis nacionais. Deram o nome a inúmeras ruas e praças espalhados por Portugal e pelo Brasil. Empurraram os limites da tecnologia aeronáutica para um novo patamar, numa altura em que a aviação dava ainda os seus primeiros passos. Adaptaram o sextante (instrumento de navegação utilizado na marinha) à utilização em altitude a bordo de uma aeronave. Criaram o derivómetro que permite calcular o vento real com recurso a bóias de fumo largadas na superfície do mar. O resultado foi atingido e conseguiram alcançar os pequenos rochedos no meio do Atlântico e posteriormente a cidade de Recife com uma precisão extraordinária que faria corar de vergonha um moderno GPS.

Alguns destes instrumentos e técnicas, pioneiros na navegação aeronáutica, foram adoptados pela aviação comercial por todo o mundo durante muitas décadas, demonstrando bem a importância global desta viagem. Mas mais do que isso, esta aventura relembra que a coragem e o engenho possibilitam ao Homem a concretização de sonhos que parecem impossíveis e explorar os caminhos “por nunca dantes navegados”.

É esta viagem que nos propomos recriar. No entanto, não resta nenhum avião destes em estado de voo. O Santa Cruz original, utilizado por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, subsiste em exposição estática no Museu de Marinha em Lisboa.

Juntando gente das várias áreas da aeronáutica, economistas, profissionais de marketing e comunicação ou simplesmente voluntários, iremos construir uma réplica da aeronave utilizada, um Fairey IIID, e efectuar a travessia do Atlântico Sul utilizando a mesma rota que em 1922, celebrando o centenário daquela grande viagem entre Portugal e Brasil.

É um grande e interessante projecto, que terá uma enorme visibilidade mediática na celebração conjunta dos dois países.