Os pioneiros

Os principais nomes associados à primeira travessia do Atlântico Sul são Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Outros devem ser lembrados em conjunto, que apoiaram ou contribuíram para a concretização deste feito.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral forjaram a confiança mútua, e a sua amizade, nas duras missões topográficas em África:

Entre 1907 e 1910,  estabeleceram a rede geodésica de Moçambique, desde a Ponta do Ouro ao Bazaruto, onde fizeram uma cobertura de mais de 32 000 km2.


Sacadura Cabral

Sacadura Cabral Nasceu em 1881-03-23, em Celorico da Beira, próximo da Serra da Estrela.

Nos anos em que esteve embarcado na Marinha Portuguesa, sempre na costa de Moçambique, Sacadura familiarizou-se com a vida da mar, conhecendo todos os portos dessa Província Ultramarina. Realizando missões de trabalho geodésico, Sacadura Cabral e Gago Coutinho trabalharam juntos entre 1907 e 1910. Foi nestas missões que Sacadura revelou os seus dotes de geógrafo, astrónomo e de organizador.

Em 1915, com 34 anos, Sacadura Cabral começou a servir o País na Aviação Militar. Depois de um breve período como Instrutor, foi responsável pela defesa dos interesses Portugueses em Moçambique, contra a Alemanha, durante a I Guerra Mundial.

Idealizou a viagem de travessia aérea Portugal – Brasil. Convidou Gago Coutinho a estudar o problema da navegação aérea, e por sua iniciativa, dedicou-se a estudar e criar um dispositivo para calcular a deriva provocada pelo vento.

Em 1921, com a ajuda de instrumentos de precisão, conseguir realizar a viagem, em linha recta, entre  Lisboa e o Funchal.

Em 1922, com Gago Coutinho como navegador, realizou a primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, usando apenas, para a sua orientação, aparelhos e métodos de navegação astronómica (sem depender de navios-baliza afastados de 60 milhas entre si, como na viagem de Mead em 1919).

Em 1923, começou a organizar a Primeira Viagem Aérea de Circum-Navegação Terrestre, juntamente com o Brasil. Sacadura defendia que os Portugueses deviam fazer esta primeira viagem à volta do Mundo. Os diversos atrasos burocráticos impediram este projecto de se materializar.

Sacadura anteviu a importância futura da aviação no transporte aéreo.

Em 15 de Novembro de 1924, desapareceu num voo, no Canal da Mancha, enquanto pilotava um Fokker 4146, de Amesterdão para Lisboa. Este era um dos 5 aviões que foram comprados por subscrição pública, e que seria usado numa viagem aérea para a Índia, como início da viagem de circum-navegação. Os corpos dos tripulantes nunca foram encontrados.

O mar guardou para sempre o corpo de um Grande Português.

(Adaptado de “Sacadura Cabral and the Dawn of Portuguese Aviation”  –  AIAA-2010-6544)


Gago Coutinho

Nasceu a 17 de Fevereiro de 1869, em Belém, na “antiga Praia do Restelo”, como gostava de afirmar. Após passagem pelo Liceu Central de Lisboa (actual Liceu Camões), matricula-se na Escola Politécnica (1885), antes de entrar para a Escola Naval, em 1886. Conclui o curso de Marinha em primeiro lugar no ano de 1888.

Esteve até 1891 em Moçambique, e Angola até 1893, com comissões de serviço a bordo de numerosas embarcações como a lancha-canhoneira “Loge” (1892), o vapor “Pero de Alenquer” (1896 -1897), e a canhoneira “Pátria” (1911-1912), onde deu apoio às forças terrestres em Betano (Timor). Na primeira e na última destas missões exereceu funções de comando.

Como Geógrafo de Campo procede à delimitação de fronteiras coloniais em Timor (1898), Zambeze (1900), Norte de Angola (1901) e Barotze (1902) e Tete (1904). Até 1910, Gago Coutinho e Sacadura Cabral estabeleceram a rede geodésica de Moçambique, desde a Ponta do Ouro ao Bazaruto, onde fizeram uma cobertura de mais de 32 000 km2. Finalmente, passados 22 anos da assinatura do Tratado Luso-Britânico (de 11 de Junho de 1891), Gago Coutinho partiu com Vieira da Rocha e Sacadura Cabral, a 1 de Outubro de 1912, para o Lobito e para o planalto de Benguela. Atravessou o continente africano por duas vezes, a pé (cerca de 5200 km² de Angola a Moçambique). Demarcou mais de 2000 km de fronteira utilizando o pedómetro e a bússola e realizou trabalhos de triangulação em áreas superiores a 800 km². Em Setembro de 1915 é nomeado chefe da Missão Geodésica de São Tomé, e em 1919 vogal efectivo da Comissão de Cartografia. As constantes observações astronómicas demonstraram a passagem da linha do equador pelo Ilhéu das Rolas, e não entre ele e São Tomé como se pensava, o que lhe valeu, mercê do contributo para a geografia terrestre.

Gago Coutinho produzira uma revolução na navegação aérea com a criação de um Sextante, com horizonte artificial. A 22 de Março de 1921 descola da doca do Bom Sucesso e chega ao Funchal, percorrendo 530 milhas em 7 horas e 40 minutos. A tripulação era constituída, para além de Sacadura Cabral (como comandante e piloto) e Gago Coutinho (como navegador), por Ortins Bettencourt (2º piloto) e Roger Soubiran (mecânico). De 30 de Março a 17 de Junho de 1922 realizam, sem apoio TSF, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Foram percorridas 4.527 milhas em 62 horas e 26 minutos.

Em 1925 é nomeado Presidente da Comissão de Cartografia, já que era o seu vogal mais antigo e o com maior número de trabalhos apresentados. Esteve à frente da Comissão de Cartografia até esta se reorganizar em Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais (em 1936) e da qual seria o seu primeiro Presidente.

Em 1928 é escolhido pelo Ministério da Guerra para presidir à comissão encarregada de reorganizar os serviços geográficos, cadastrais e cartográficos e no ano seguinte torna-se no primeiro presidente da Junta de Educação Nacional, que se viria a transformar no futuro Instituto de Alta Cultura, actual Instituto Camões.

No início da década de 30, é convidado, pela companhia aérea alemã Dornier, para fazer parte da tripulação do enorme hidroavião Do X como co-navegador, numa viagem à América do Sul, onde se aplicou o seu Sextante. Reconstituir as viagens e procurar resultados, nomeadamente a rota de Pedro Álvares Cabral, levaram-no, já com a idade avançada de 74 anos, a empreender uma viagem a bordo do navio “Foz do Douro” durante 105 dias (103 dos quais sem ver terra), percorrendo 8740 milhas.

Em 1959 falece com a idade de 90 anos.