Back to all Post

Rui Costa Pinto deixou-nos.

Historiador rigoroso e exigente: são estas as primeiras palavras que encontro para Rui Costa Pinto.
E encontro outras: amigo, disponível para ajudar, lutador, persistente e sorridente – principalmente quando falava de Gago Coutinho.
Rui Costa Pinto esteve com o Projecto Lusitânia 100 desde o primeiro dia: 30 de Março de 2012.
Diversos acasos (?) quiseram que se juntasse um grupo de pessoas, em Belém, Lisboa, junto ao monumento à Travessia, de manhã cedo.
Muitas das pessoas não se conheciam entre si.
Junto ao monumento, sob a asa do Fairey III D, Rui Costa Pinto começou a falar com alguém que lhe estava próximo. E gradualmente, começou a falar mais alto, e para todos nós.
Fez uma evocação da Travessia, de Gago Coutinho, e de Sacadura Cabral. Partilhou connosco o seu saber, e o seu sentir. Debaixo da chuva, que caía grossa.
Quando terminou, já não éramos um grupo de desconhecidos: como disse Daniel Filipe, ficamos “subterraneamente unidos”, por tudo aquilo que nos transmitiu.
A urgência da chuva obrigou-nos a transferir o resto da convivência para a Vela Latina, onde registamos a primeira fotografia dos fundadores. Foi nessa manhã que tomamos a decisão de constituir um grupo de trabalho, que mais tarde deu origem à Associação Lusitânia 100.
Para além de muitas outras funções e responsabilidades, Rui Costa Pinto era o Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Lusitânia 100
Incansavelmente, estudou a obra que foi deixada por Gago Coutinho. Tornou-se no seu maior biógrafo.
Conhecia tão bem a letra (“hieroglífica”) de Gago Coutinho, que conseguia quase sempre terminar as palavras dos seus manuscritos, mesmo quando incompletas.
Teimosamente, pesquisou caixas e caixas, em diversos arquivos.
Escreveu dois livros sobre Gago Coutinho: “Gago Coutinho – o último grande aventureiro português”, e “Almirante pioneiro com alma de tenente”.
O seu esforço e seriedade foram recompensados, ainda com mais trabalho: diversos particulares confiaram-lhe espólios documentais, que ele incansavelmente estudou.
E continuava a pesquisar e a escrever, apesar de ter que lutar contra dificuldades inesperadas, e inexplicáveis: algumas inevitáveis, outras absurdas.
Apesar dos seus anos de trabalho, disse-me uma vez que ainda faltava tratar muito do material que foi deixado por Gago Coutinho – estava longe de estar todo estudado.
Estava sempre disponível para partilhar o seu conhecimento acerca de Gago Coutinho e da Travessia de 1922.
A sua maneira suave de falar envolvia-nos, e quase que nos transportava para presença de Gago Coutinho.
Quando nos falava do Geógrafo, Rui Costa Pinto transformava-se em algo maior do que ele próprio.

João Moura Ferreira
Lisboa, 2020-04-20

© 2021 Lusitânia 100 | Desenvolvido por this.functional